A Redoma de Vidro de Sylvia Plath
 
 
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Trabalhos em português
 
trabalho publicado dia 13/04/2009
 
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nível : todo público
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section Resumo
 
 
O presente estudo analisou a obra A Redoma de Vidro de Sylvia Plath tendo em vista duas estruturas científicas. A primeira buscou inserir a obra em seu contexto histórico social, revendo fenômenos ocorridos nela, tais como a Revolução feminista e seus processos precursores. A segunda se valeu de teorias psicanalíticas para serem associadas à sociedade, usando o romance como ferramenta de análise.
Buscou-se defender a hipótese de que a partir das insatisfações sociais com a modernidade e o Espírito Positivo, a configuração social deixaria de se justificar por modelos de coletividade e passaria a defender a formação de indivíduos pelos seus atributos. Esse processo foi designado como a perda do Pai social e sua justificativa elege a teoria do complexo de Édipo para apoiar a idéia de que tal mudança causou a ausência de referências dominantes e estimulou uma cultura onde o Eu seria o único modelo.
A idéia de uma sociedade narcisista é defendida pela sua arte que utiliza o Eu como canal por onde podem escapar toda sensação humana e onde estaria ela melhor legitimada. O estudo do romance por esse prisma comprovou que, diferente do que pensávamos, o enfoque sobre o gênero e as categorias são compatíveis ao desejo social de individuação e, portanto, não se auto-excluem.
O estudo da obra lançou luz sobre nosso foco, percebeu-se que o romance representa a transição angustiada da a sociedade para um novo estágio: a transformação de indivíduos em sujeitos.

Palavras-chave: Coletividade, indivíduo, Édipo, narcisismo, Sujeito. OLIVEIRA, Danilo Araujo de. Literatura de Gente ou de Gênero. O fim do Édipo em a Redoma de Vidro. Engenheiro Coelho, 2006. p62. (Monografia) - Curso de Letras/UNASP - Engenheiro Coelho.

INTRODUÇÃO
Antes de nos formarmos como homem e mulher em suas específicas necessidades, somos primariamente seres humanos. A Revolução Feminista fez com que em 1948 o que era um tratado sobre "os direitos dos homens" fosse reformulado para "os direitos humanos". Mas aos poucos, fomos observando também a libertação de outros grupos, antes marginalizados, que caracterizou uma grande mudança nos paradigmas sociais de nosso tempo. O que pode ter sido responsável por todas essas manifestações quase concomitantes?
O trabalho a seguir tenta responder essa questão com o desenvolvimento de um parecer; a defesa de que houve na sociedade a perda de um referente por onde poderia se nortear a formação de uma alteridade social. A partir daí, todo indivíduo passou a conceber seus padrões de conduta e sua própria personalidade diante do mundo tendo apenas o seu próprio eu como referência.
No primeiro capítulo, o que poderia parecer apenas considerações sobre a biografia de Sylvia Plath, (de quem analisamos o livro no presente estudo), torna-se, na verdade, em uma evidência dessa tendência narcisista que toma o si mesmo como justificativa de sua visão-de-mundo e de onde é possível construir sua percepção dele. Oferecemos nesse capítulo uma análise entre a obra A Redoma de Vidro e a biografia de Sylvia Plath que, nos fará perceber as proximidades entre o relato ficcional e sua própria vida, no entanto, para não incorremos na crítica literária, justificamos nosso procedimento como mero levantamento de dados para enriquecimento do espólio analisado, e para abrirmos caminho de reflexão sobre o que isso pode simbolizar na sociedade narcisista; sem com isso atribuir à produção do romance nenhum título de biografia.
No segundo capítulo, fundamentamos nosso pensamento pelo levantamento histórico da sociedade moderna, mas especificamente do pensamento positivo, que defendia a sociedade sob a ótica da coletividade. Nossas considerações levam em conta a desilusão dessa filosofia, e a reação pós-modernista de recriar a sociedade a partir de seus desejos individuais. A partir de um paralelo com as teorias do complexo de Édipo e dados biográficos de Sylvia Plath pudemos justificar essa hipótese.
No terceiro e último capítulo de nosso trabalho nos propomos a analisar o conteúdo do romance tomando o material artístico e a simbologia social da personagem protagonista como evidencias comprobatórias desse fim do Édipo (lê-se fim das referências dominantes). Tanto ocorrido no plano social como no literário.
Nas considerações do trabalho buscou-se com a defesa dessa hipótese social responder ao nosso questionamento científico, baseado em analisar se o dizer da personagem está no campo institucional feminista ou no sentimento universal da formação de um indivíduo.
Assim, justificamos nosso trabalho das próximas páginas por refletir sob a possibilidade de termos no texto artístico a intervenção social de todas essas mutações, e consideramos que a leitura do mesmo contribuirá para o entendimento desse momento histórico, mas sobretudo, para entendermos que processos passados formaram nossa atual consciência e sob que estado de nervos foi ela nascida.

I. BIOGRAFIA ILUDIDA DE SYLVIA PLATH

1.1 A vida nos limites da ficção
Numa noite fria de inverno, a cidade de Devon presenciou o alarido de uma transição; uma vida duplicada pela intensa experiência subjetiva trocava o existir por uma memória. Sylvia Plath morria no dia 11 de fevereiro de 1963. Deixava dois filhos pequenos, incertos quanto ao futuro, acompanhados do leite quente ao lado de suas camas e de uma janela aberta por onde escapava o frio e suas esperanças. Ela transferiu para a sua matéria a condição que experimentava em seu espírito, seduziu um elemento químico - o gás - para participar de sua conflitante constituição e, assim, morria o seu corpo à medida que transcendia a sua arte.
Conquanto que seja uma experiência memorável, não apenas pela intensidade de seu teor, mas, sobretudo pela dispersão da arte plathiana; o suicídio da autora foi somente o fim de sua vida, neste capítulo, no entanto, está na existência dela as nossas maiores atenções.
Consideramos que a resposta a uma pergunta singela, porém, essencial, a que se propõe este capítulo, fará entre o leitor e a própria história um ponto de intersecção especial para o entendimento de sua vida: A Redoma de Vidro e um livro autobiográfico?
Não fugimos do fato que a resposta a esta pergunta é assunto delicado, em especial, porque as propostas deste estudo se sustentam em ideais literários sistematizados, todavia sentimos que uma atenção maior a esta questão poderá enriquecer os préstimos oferecidos a maturidade literária da autora, mas, sobretudo, aos dados no que concerne a sua experiência de vida, não em considerações miméticas de criatividade ficcional. Ainda que não descarte uma discussão sobre a relevância da vida na construção narrativa de um texto.
Escrever sobre si própria se enquadraria perfeitamente nos interesses de sua criação, Plath (assim como o ser humano pós-moderno) estava interessada em discursar sobre os conflitos, desencontros e desconexões. Certa vez, ao escrever para a mãe, Sra. Aurélia Plath, mencionou:

... pare de tentar me fazer escrever sobre as pessoas decentes e corajosas - para isso você pode ler Ladies ' Home Journal! É pena que os meus poemas deixem você assustada - mas você sempre teve medo de ler ou olhar para as coisas mais difíceis deste mundo - como Hiroshima, a Inquisição ou Belsen."(PLATH apud MALCON, 1995, p.24).

No momento em que Plath escrevia A redoma de Vidro (1962), os conflitos e incongruências sumarizavam a própria essência da autora, sua recente separação com o então esposo Ted Hughes, a distância da sua nação e possivelmente, o silenciamento gradativo das vozes de afirmação - de que ela precisava tanto - fizeram de sua vida a principal temática de suas linhas.
Em soma a tudo isto, está um aglomerado satisfatório de citações que concordam veementemente com uma resposta afirmativa de nossa primeira pergunta. De fato, ao buscar material e embasamento para este primeiro capítulo, pudemos perceber que as respostas já estavam pertinentemente elaboradas e que oferecer uma discussão sobre a questão, não seria exatamente um dado novo para a vida e obra de Sylvia Plath.
O relato escrito por Janet Malcolm em seu livro: "A mulher calada. Sylvia Path, Ted Hughes e os limites da biografia" de 1995, também assevera essa informação:

The Bell Jar e um relato ficcionalizado do colapso, do tratamento de choque e da tentativa de suicídio da própria Sylvia Plath em 1953, e ela não queria que os originais em quem se inspiravam suas personagens detestáveis - especialmente sua mãe - lessem o livro. (...) Por isso, Sylvia Plath publicou o livro sob o pseudônimo de Victoria Lucas. (MALCOLM, 1995, p.41)

Ou ainda na obra de Anne Stevenson, autora do livro "Amarga Fama. Uma biografia de Sylvia Plath"(1989), o qual utilizaremos mais adiante como fonte de estudo contrastivo, de onde extraímos o seguinte trecho: "A história da primeira tentativa de suicídio de Sylvia e os acontecimentos angustiosos que levaram a ele estão mal e mal disfarçados em trechos autobiográficos de A Redoma de Cristal" (STEVENSON, 1989, p.68).
Mas até que chegasse aos dezenove anos - por onde iniciam seus relatos no romance -, uma vida marcada pela integração poética e pelo vazio da perda construiria os alicerces de sua personalidade. A natureza intensa de Sylvia se moldava pela preferência acentuada de seu pai na primeira infância e, posteriormente, pela perda traumática do mesmo quando tinha ainda oito anos.
A ausência prematura de seu pai causaria a ela um agravante em seu gênio inflexível e austero, tanto nas relações mais fraternais quanto no relacionamento com o marido, pois a concepção de gênero estava no alvo das mais profundas modificações; daquilo que iria caracterizar um momento histórico para a sociedade mundial (falaremos disto em nosso 2º capítulo). O distanciamento paterno que Plath enfrentou em sua infância a condicionou como modelo pessoal do que ocorria na realidade macro-social de toda uma época.
Ainda que nos ofereçam motivos contundentes para a justificação de uma personalidade tão irredutível, os dados de seu período infantil comprovam uma infância comum para a educação dos anos 30. Serão sobre estes primeiro anos que nos ateremos a partir de agora, aqueles que formariam mais da metade de sua vida e que nos transferirão para a fase a que Sylvia se deteve em seu romance.

1.2. Nunca mais Sylvia Plath
Num dos momentos mais dolorosos da vida de Sylvia Plath, ela garantiu: "Nunca mais vou falar com Deus!". Era uma reação razoável diante da notícia que sua mãe lhe trazia em seu quarto, Otto Plath - pai de Sylvia - havia morrido no hospital depois de contrair diabetes mellitus. Aquela era a manhã de 6 de novembro de 1940, o início do suicídio angustiado da pequena garotinha, com então oito anos de idade.
A morte de seu pai era um absurdo, na verdade, um traço vaidoso dos parâmetros de dignidade do Sr. Plath, a imprudência dele caracterizou na imaginação de Sylvia, um suicídio disfarçado, já que ele havia se recusado a qualquer tipo de tratamento. Então, a pequena Sylvia jamais seria ela mesma, a perda paterna levara consigo a possibilidade de uma estruturação psicológica sadia e aniquilou os efeitos positivos do totemismo. A partir dali o espectro de seu pai jamais a abandonaria, esfumaçado em suas mais profundas e nervosas obras, sempre com um tom inacabado de revolta e indiferença.
A busca incessante pela figura paterna perdida mensurou toda energia superior de Sylvia, tanto na produção de sua arte como, provavelmente, na busca de um parceiro. Entretanto, pode se perceber que os envolvimentos de Sylvia tinham intuitos compensatórios e correspondiam sempre às forcas vingativas contra o homem que a abandonara. Isso explicaria o filhote feroz temendo por sua própria vida, sempre disposta a garantir que tudo ia bem e de atrair a atenção dos olhos substitutos de Otto Plath para neutralizar um pouco a ausência dele.
Diante de toda esta problemática, Sylvia Plath afirmou "Nunca mais..." para muitas coisas, era um recurso desesperado de ferir e transferir a dor maior que estava nela mesma, de onde podemos não só sugerir, mas, afirmar que se existia uma Sylvia em formação até o dia 6 de novembro de 1940, esta se desintegrou para sempre nas águas de seu sufocamento psíquico.
Escreveu Anne Stevenson em 1989 no livro Amarga Fama, uma biografia de Sylvia Plath, na página 32:

"...Ameaçadoramente, irresistivelmente, ele [Otto] reapareceria na obra dela como um colosso, um deus marinho/musa, um suicida afogado, um rei grego arquetípico, um apicultor (bravo senhor de uma colônia perigosa), até, como no famoso poema "Daddy", como uma brutal combinação fictícia de marido e nazista da Luftwaffe.".

Quase como um eco das palavras de Stevenson, porém, em sentido oposto sugerimos que, ao invés dele, era ela quem se auto-copiava naquilo que considerava genuinamente paternal, e drasticamente pungente, como fora sua relação com ele.
Tememos apresentar ao mundo as notas biográficas de um fantasma, dimensionado pelo reflexo de um pai morto e pela abstinência da própria vida. De forma que, este evento de proporções tão traumáticas fez com que ela negasse a si mesma e começasse a construir uma redoma que encubou a autentica Plath e inviabilizou uma vida própria, depois disto nunca mais Sylvia Plath conseguiu ser a mesma.
 
 
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